domingo, 8 de maio de 2011

Amizade problemática faz mal à saúde, diz estudo

Amizade problemática faz mal à saúde, diz estudo

                              
Mary Duenwald

Do New York Times News Service – publicada pelo UOL-Saúde em 10/09/2002
Quem tem boas experiências de amizade sofre menos estresse, recupera-se mais rapidamente de ataques cardíacos e tem maior probabilidade de vida longa do que as pessoas que nâo têm amigos.

Esses e outros benefícios da amizade foram atestados por diversas pesquisas divulgadas nos últimos anos. Agora, a comunidade científica descobriu que nem todos os amigos têm efeito salutar.

Alguns mentem, insultam e traem. Alguns são excessivamente carentes. Alguns dão conselhos demais. Psicólogos e sociólogos começam a chamar a atenção, agora, para os efeitos negativos dos maus amigos sobre a saúde.

"A amizade é muitas vezes penosa", diz a psicóloga Harriet Lerner, autora de "The Dance of Connection" [A Dança da Conexão].

"Em uma amizade estreita e duradoura, ciúmes, inveja, raiva e toda a gama de emoções difíceis tendem a surgir. É preciso decidir se a melhor coisa a fazer é considerá-las como fenômeno passageiro ou determinar que fazem mal à saúde e desistir da amizade".

Outro livro, "When Friendship Hurts" [Quando a Amizade Machuca], do sociólogo Jan Yager, da Universidade do Connecticut em Stamford, aconselha deliberadamente a abandonar os maus amigos, ao longo do caminho. "Existe esse mito de que amizades deveriam durar a vida inteira", diz Yager. "Mas às vezes é melhor que acabem".

Que os cientistas sociais tenham esperado até agora para dar destaque aos perigos das más amizades é compreensível, considerando que a amizade em geral só começou a merecer sua atenção recentemente. O casamento e as relações familiares -entre irmãos ou pais e filhos- sempre forma vistos como mais importantes.

Evidentemente, é bem menos provável que amizades problemáticas gerem depressão ou suicídio do que é o caso com os casamentos problemáticos. E as crianças raramente sofrem efeitos sérios quando suas amizades encontram problemas.

Como autora de livros populares sobre relacionamentos, Lerner diz que "jamais alguém me escreveu para se queixar que apanha do melhor amigo".

A Dra. Beverley Fehr, professora de Psicologia na Universidade de Winnipeg, ressalta que mudanças sociológicas, tais como um índice de divórcio de 50%, aumentaram o peso dos amigos para a saúde física e emocional.

"Agora, que não se pode contar com uma relação marital como fonte de estabilidade, como acontecia no passado, as pessoas transferem seu interesse à amizade como forma de construir comunidades e encontrar intimidade", diz Fehr, autora de "Friendship Processes" [Processos da Amizade].

Até cerca de dois anos atrás, a pesquisa sobre a amizade se concentrava em seus benefícios para a saúde. "Agora, ela começa a ser observada como uma relação mais completa", diz Suzanna Rose, professora de Psicologia na Universidade Internacional da Flórida em Miami. "Como o casamento, a amizade também tem características negativas".

A pesquisa está ainda em estágio inicial. Os psicólogos ainda não mediram os efeitos negativos de uma má amizade", diz Fehr. Até agora só compreenderam, por meio de levantamentos e entrevistas, que ela é um problema significativo. A pesquisa inicial, diz Fehr, demonstra que a traição de um amigo pode ser mais devastadora do que os especialistas acreditavam.

De que maneira um amigo pode fazer mal? A mais óbvia, diz Rose, é atraindo alguém a comportamento criminoso ou empreitadas insensatas. "Quando se pensa nas pessoas que eram amigas na Enron", acrescenta, "pode-se compreender que maneira a amizade sustenta um comportamento anti-social".

Traição

Para o professor de Psicologia na Universidade da Carolina do Sul Keith Davis, freqüentemente os amigos brigam porque um deles revelou segredos ou informações pessoais que o outro queria manter confidenciais.

Outra forma de traição, diz Yager, é quando um amigo subitamente se torna frio, sem nunca explicar a razão. "É mais que um simples afastamento", diz. "O silêncio na verdade é cruel".

Pelo menos igualmente devastador é ter um caso com o par romântico do amigo, como aconteceu recentemente a uma das pacientes de Lerner. "Eu não a encorajaria a insistir e tentar preservar essa amizade".

Um terceiro tipo de má amizade envolve insultos, diz Yager. Uma das 180 pessoas que ela entrevistou em uma pesquisa recente contou como, aos 11 anos, sua melhor amiga a chamou de "um termo ofensivo".

A mulher, que hoje tem 32 anos, ficou tão devastada que sente que nunca mais foi capaz de se abrir totalmente para as pessoas, diz Yager.

O abuso emocional pode ser menos perceptível do que o abuso verbal, mas é "mais insidioso", diz Yager. "Algumas pessoas constantemente aprontam com os amigos", explica. "Dão uma festa, não convidam o amigo, mas garantem que ele saiba que a festa está acontecendo".

Os que induzem ao risco, os traidores e os que praticam abusos são os maus amigos de tipo mais extremo, diz Yager, mas não são os únicos. Ela identifica 21 variedades diferentes.

No segundo escalão de maus amigos temos os mentirosos, os dependentes, os que nunca ouvem, os que interferem demais, os competitivos e os solitários, que preferem não estar com os amigos.

O mais comum é o amigo que não respeita promessas. "Isso inclui todo mundo, da pessoa que diz que vai sair para um café com você mas sempre tem uma desculpa de último minuto a alguém que promete ajuda quando você precisar, mas não a dá", diz Yager.

Algumas amizades se desgastam, como as relações românticas, quando uma das pessoas subitamente encontra motivos para não gostar da outra.

"No caso dos casais, demora entre 18 e 24 meses para que alguém descubra que existe algo de importante no outro de que ele não gosta", diz Rose, da Universidade Internacional da Flórida. "Pode-se descobrir, de maneiras sutis, que a outra pessoa é racista, por exemplo. Em amizades, que são menos intensas, talvez demore ainda mais para que alguém provoque o desgosto do amigo".

Rompimento saudável

Lerner diz que determinar se vale a pena salvar uma amizade depende do tamanho do dano.

"Às vezes, a coisa mais madura a fazer é deixar alguma coisa passar", acrescenta. A aceitação deve ser mais fácil entre amigos do que entre cônjuges, acredita, porque as pessoas têm mais de um amigo e não precisam de toda a gama de apoio emocional vinda de cada amigo.

Mas se a amizade se deteriorou a ponto de um amigo sentir hostilidade com relação ao outro ou se ela estiver causando desgaste excessivo, o mais saudável é romper, diz Yager, deixar de contar detalhes íntimos ou pessoais de sua vida e alegar compromissos que impedem encontros, dali por diante.

A amizade, por ser voluntária e não regulamentada, é mais fácil de dissolver do que o casamento. Mas também é comparativamente frágil, dizem os especialistas. Idealmente, a perda de uma má amizade deveria dar a uma pessoa mais tempo e apreço pelas boas amizades que lhe restam, diz Lerner.

"É inteligente prestar atenção às suas amizades e mantê-las vivas quando você está bem de saúde e sua vida e trabalho vão bem", disse. Porque quando surge uma crise, quando alguém que você ama morre ou você perde seu emprego e seguro de saúde, quando o universo o faz ciente de sua vulnerabilidade, você vai descobrir o quanto bons amigos são importantes e o quanto isso preservará sua vida".
Tradução: Paulo Migliacci


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